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Ritual de Cremação no Rio Ganges em Varanasi

Posted By: tatiana on fev 22, 2012 in Índia, Por onde andei

Após 10 horas de viagem cheguei em Varanasi, uma das cidades mais antigas do mundo e a mais sagrada pela religião hindu. Localizada às margens do Ganges (também chamado de Ganga) e com mais de 3 milhões de habitantes, Varanasi me chocou por vários motivos.

Primeiro não há espaço nas ruas estreitas pra tantas pessoas, vacas, rickshaws, carros, motos, cabras, sadhus, cachorros, mendigos, pedintes, ratos, cobras, poeira, lama, cinzas dos mortos… Segundo, todos os rituais religiosos da Índia são elevados a vigésima quinta potência nessa cidade. Juntando todas as pessoas, vacas, rickshaws, carros, motos, cabras, sadhus, cachorros, mendigos, pedintes, ratos, cobras, poeira, lama, cinzas dos mortos e os rituais religiosos, posso afirmar que lá, saí do corpo e fiquei totalmente sem rumo.

As primeiras cenas me chocaram. Quando cheguei às margens do Ganges e vi toda aquela gente submergindo naquela água imunda, tive certeza que esse rio é de fato sagrado. Só mesmo sendo sagrado pra não matar os indianos de esquistossomose, hepatite, cólera, amebíase, giardíase ou qualquer outra praga de águas sujas. Dei uma pesquisada e encontrei um estudo recente e muito assustador. Em uma amostra de 100ml dessas águas sagradas, foram encontrados 1,5 milhões de coliformes fecais! O número aceitável para banho é 500, são só 600 vezes mais que o limite para a água ser considerada potável. Enfim, para os indianos, um banho no Ganges limpa e purifica a alma. Só mesmo a alma, porque o corpo você já deve imaginar como fica.

Depois de me recompor desse primeiro impacto, tive minha segunda parada cardíaca ao chegar ao crematório de Marnikarnika Ghat. É neste local que, sobre as fumegantes piras de fogo sagrado, dia e noite centenas de corpos desaparecem diante dos nossos olhos. Fiquei meio distante, não tinha certeza que queria entrar naquele campo fúnebre, quando de repente surgiu a morte personificada. Um homem magro, alto, vestindo uns mantos e muitos colares, com 4 dentes marrons na boca e 10 dedos pretos sem unhas agarrando o meu braço. Ele disse: “No photo, herrre show rrrrespect! You come alone! No photo, herre rrrrrespect! Come, come, now!” Depois de ressuscitar, me dei conta que estava sendo levada para o crematório e reagi. Disse a ele: “Sir, it’s ok, thank you very, very, very, very much, but no thanks. I am OK, I will stay h…” Ele não deixou eu acabar a frase e gritou: “Herrre show rrrrrrespect, come!!!!!” Só me restou ceder.

Em meio a todas aquelas piras funerárias, não consegui enxergar muita coisa. Era muita fumaça e cinzas pairando pelo ar. Além disso, não pude concentrar muito no que estava acontecendo ali, porque a mão da morte personificada segurando o meu braço tirou o foco de tudo o que estava ao meu redor. Fui tentando memorizar todos os locais onde ele me tocava pra poder desinfetar depois.

Finalmente quando ele me largou, comecei a analisar a cena. Ao lado do meu pé esquerdo tinha um corpo de um homem embrulhado em um pano laranja só com a cabeça de fora. Já no pé direito, alguns ossos. Um pouco mais a frente, uma mulher derretendo na fogueira. Atrás de mim, uma vaca comendo as flores ofertadas aos mortos. Ao redor, cães e corvos disputando os resíduos dos corpos. E finalmente mais abaixo, crianças jogando críquete (o esporte preferido dos indianos) e pessoas de todas as idades se banhando no rio num ritual de purificação. Toda essa cena exalava um cheiro de carne queimada. Foi muito difícil, mas me recusei a desmaiar. Cair ali, naquele chão, estava fora de cogitação. Depois que o fluxo sangüíneo voltou a irrigar meu cérebro, tive a minha primeira reação. Olhei para a morte personificada e levantei ambas as sobrancelhas. A segunda reação foi tentar não respirar. Não deu muito certo. A terceira, foi tentar respirar uma vez a cada 5 minutos. Também não deu certo. Finalmente cedi e inalei todos aqueles restos mortais que elegantemente pairavam no ar.

Em meio aos defuntos, a morte personificada começou a explicar todo o ritual fúnebre, detalhe por detalhe. Ao fim da explicação exigiu uma doação para os mortos e para que eu tivesse bom karma. Disse que 200 rupees comprariam 2kg de madeira, 300 rupees 3kg e 500 rupees 5kg. Pra ter bom karma, disse que era melhor pagar 500 rupees (em torno de 10 dólares). Tirei 200 rupees do bolso dei a ele explicando que já tinha uma boa parcela de bom karma e que juntamente com esses 200 rupees estava de bom tamanho. Mas a morte começou a negociar o meu karma e a felicidade dos defuntos exigindo os 500 rupees. Finalmente respondi em um inglês com sotaque indiano para ter certeza que entenderia: “Sirrrr, please show rrrrrespect! I will pay 200 rrrrupees for the dead and forrr my karrrrrma! Please, rrrrrrrespect!” Pulei o defunto da frente, desviei da vaca e da mulher já derretida e nem olhei pra trás.

A minha vontade era sair dali direto para uma piscina de cândida, pinho sol e creolina. Mas só consegui acabar com o meu único tubinho de álcool gel e alguns vários lenços umedecidos. Fiquei algumas horas em estado catatônico. A noite, quando comecei a raciocinar novamente, me dei conta da besteira que fiz. Devia ter entrevistado a morte personificada! Nunca vi um homem tão amedrontador em toda a minha vida. Era de filmar. Infelizmente, naquele momento não saberia nem ligar a câmera, quanto mais entrevistar o cidadão. Por isso, no dia seguinte, juntei todas as minhas forças e voltei ao campo fúnebre e entrevistei outro ser do além. Uma pena, mas não consegui encontrar a morte personificada. Nunca achei que um dia fosse dizer isso…

Vejam abaixo, na íntegra.

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Discussion - 25 Comments

  • Bruno Giorgetto fev 22, 2012 

    Tati! Td bem?
    Lembro-me de quando vc comentou sobre seu projeto em uma daquelas conversas de cozinha na Discovery e eu começei a imaginar como seria essa jornada de vida, por dividir o mesmo desejo.
    Compartilho da inquietude em buscar um sonho escondido na subconsciência e admiro quem as toma como objetivo de vida!

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    • tatiana fev 22, 2012 

      Oi Bruno, que legal que veio ver! Afinal, você participou do processo todo! Me viu angustiada, ansiosa e finalmente, muito feliz com a realização de um sonho! Dou a maior força pra você realizar o seu. Conte comigo se precisar qualquer ajuda!

      grande beijo

      Responder
  • Bruno Giorgetto fev 22, 2012 

    …Parabéns pela realização!
    Irei acompanhar cada post e ler os passados que ainda não li.

    Desejo o melhor para suas descobertas e enriquecimento interno! E sempre compartilhe conosco suas experiências para que eu já comece a pesquisa de qual lugar devo começar a minha! Bjs =)

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    • tatiana fev 22, 2012 

      Obrigada querido! Acompanhe mesmo, mas mais que isso, inspiri-se! Dou a maior força!

      beijos

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  • Alexandre Imanishi fev 22, 2012 

    Tati, paralisei contigo só de tentar imaginar o que foi essa passagem. Chocante. Leva ladeira abaixo todos os nossos padrões de ritos e costumes. Fiquei com uma impressão de que você foi ao inferno e voltou…

    Responder
    • tatiana fev 22, 2012 

      Alê, eu tenho certeza que fui ao inferno e voltei… pior, fui de mãos dadas com o capeta!

      bj

      Responder
  • Alexandre Imanishi fev 22, 2012 

    O mais surreal é imaginar que eu estou aqui em Juquehy, num lindo e tipico dia de sol, um mar lindo na minha frente e vc aí… em um ritual de crematório cercada por defuntos e ossos…

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    • tatiana fev 22, 2012 

      Viva a tecnologia que nos permite saber um do outro! Agora sem mais detalhes sobre esse sol, mar, praia… ok?

      O único calor que senti esses últimos dias foi humano e das piras funerárias!

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  • Rebeca fev 22, 2012 

    Juro, você consegue se superar nos seus textos. Esse foi, sem dúvida nenhuma, o mais divertido de todos.
    Tati, please show rrrrrespect! Coitado dele se souber que foi chamado de morte personificada. Please, rrrrrrrespect! Vai aparecer a noite pra puxar seu pé, pra não dizer sua alma. Não sei, tenho medo!
    Que loucura!!! Está totalmente fora da minha alçada imaginar um cenário como esse. Não consigo mesmo!
    Tá de parabéns!! É essa coragem de enfrentar o que tiver pela frente que traz os melhores frutos.

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    • tatiana fev 23, 2012 

      kkkkkkkkkkkk

      Na hora não me diverti muito não, mas depois não parei mais de rir!

      Responder
  • Flavia fev 22, 2012 

    Nossa, Tati, fiquei impressionada com o que vc escreveu… que experiência sinistra!

    Responder
    • tatiana fev 23, 2012 

      SINISTRA!!!!!!! Essa é a palavra, Flavia! bjs

      Responder
  • Alexandre Imanishi fev 22, 2012 

    Nossa Tati, depois dessa entrevista, fiquei aqui refletindo com meus botões que para conhecer a Índia, tem que rolar uma preparação psicológica. Não é pra ir “de alegre” só porque é Cool…

    Responder
    • tatiana fev 23, 2012 

      Sim Alê, na India é preciso ter paciência e abstrair muita coisa. Se você conseguir fazer isso, com certeza terá uma experiência incrível. Mas não é um lugar fácil de viajar. É preciso ter certeza que está preparado para embarcar nesse túnel do tempo, porque tudo é muito diferente da nossa cultura.

      Responder
  • Joao Veloso fev 23, 2012 

    Meu, sem filmar o cara queria te cobrar 500… imagino que você deixou o equivalente aos 200kg de um funeral completo pela entrevista!! hahahaha

    Responder
    • tatiana fev 23, 2012 

      hahahahahahaha Sim, no fim saiu mais caro! Mas tudo bem, valeu a experiência! bjs!

      Responder
  • Tiare fev 23, 2012 

    Tati, vc esta se revelando uma reporter de VERDADE!!
    Nao poupa esforco e faz sacrificios por uma boa e inedita historia.
    Eh isso ai. Ta na chuva tem que se molhar…. Ta no Ganges, faltou um mergulhinho para lavar a alma.
    Vi muitas similaridades, principalmente no quesito visual e provavelemente olfato, com a nossa meca de Aparecida nos dias santos.
    Vc ja passou por essa experiencia verde e amarela?
    Bjos, saudades….

    Responder
    • tatiana fev 25, 2012 

      hahahahaha nossa, verdade! passei de longe, porque quando vi aquele formigueiro dei meia volta…. olha Tiare, essa do crematório foi mesmo um sacrifício jornalístico que rendeu alguns pesadelos! rsrs

      beijos

      Responder
  • Paula Aboudib mar 09, 2012 

    tatiiiii
    eestamos tds reunidos aqui na casa do meu pai pq é niver do gui. li para todos esse post aqui e o do rato. rimos mtttttt e sentimos tbm aquele nojinho basico pelo que vc passou hahahahaha…

    beijossss aproveita!!!

    Responder
    • tatiana mar 09, 2012 

      hahahahahaha

      Que legal! Queria vocês aqui! Mande um beijo enorme pro Gui e outro pra vc!

      Obrigada!

      Responder
  • Mira Mccallough abr 04, 2012 

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    • tatiana abr 05, 2012 

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      Thanks for the sweet words ; )

      Tatiana Perim

      Responder
  • Van abr 29, 2012 

    Tati, dizem que quem vai a Indía para a viagem ser completa, precisa mergulhar no Gandes para sair com a alma lavada, vc mergulhou? Bjs

    Responder
    • tatiana mai 01, 2012 

      Amiga, como quero continuar vivendo, achei mais prudente não voltar completa pra conseguir voltar viva!

      Tá louca! Nem na próxima encarnação!

      bjs

      Responder
  • Marco Aurelio out 19, 2012 

    wow… além do seu texto ser brilhante e nos levar até o local, a sua coragem e perseverança é de ser aplaudida. Se eu já era seu fá, estou escalando um degrau a mais. Eu gosto destes tipos de viagens e procuro uns caminhos semelhantes. Mas depois deste texto vejo que estou ainda longe nos meus roteiros… parabéns novamente… xx

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