"

Os fantasmas do Camboja

Posted By: tatiana on mar 31, 2012 in Camboja, Por onde andei

Se você pensa que o Camboja tem apenas lindos templos, suntuosos palácios e uma rica cultura; pense de novo.

Há também uma ferida profunda no país. Uma ferida que virou um câncer destruindo sua cultura, seu conhecimento e praticamente duas gerações de cambojanos. Esse câncer, que após três décadas ainda choca e entristece, tem um nome: Pol Pot.

Seu verdadeiro nome é Saloth SAR. Mas como todo tirano insano é também vaidoso, preferiu usar o carinhoso apelido, Pol Pot, que é a abreviação de “Political Potence”.

Seu regime, o Khmer Vermelho, foi o mais trágico exemplo de insanidade, desrespeito e animosidade contra a vida humana. Um regime de terror sem paralelo na Ásia e que talvez apenas os Nazis de Hitler se possam comparar a eles.

Disfarçados de libertadores, as tropas do Khmer Vermelho entraram em Phnom Penh em 1975, marcando o fim da administração Lon Nol e o começo de um longo pesadelo. Foram recebidos pelos sofridos cambojanos sem resistência e como muita alegria. A euforia durou pouco. Em poucos dias esvaziaram as cidades e começaram um grande deslocamento forçado da população urbana rumo às áreas rurais, para dedicar-se à produção agrícola. As cidades tornam-se vazias e fantasmagóricas. Para Pol Pot a cidade era a fonte de todo o mal. Os cambojanos deveriam eliminar os vícios “burgueses” e se reeducar com as massas camponesas.

Foi abolida a religião, o sistema monetário e a livre iniciativa. As escolas e templos foram fechados e destruídos e as bibliotecas foram transformadas em chiqueiros. Tudo em nome de uma sociedade sem classes e sem posse privada. Um comunismo agrário, radical e livre do capitalismo. Intelectuais e profissionais liberais foram torturados e executados. Assim os homens de Pol Pot deram início a uma sanguinária perseguição aos opositores do regime. Ou seja, todos que possuíam uma profissão que envolvesse algum tipo de conhecimento foram alvo de uma perseguição insana, sangrenta e cruel. Eram considerados perigosos engenheiros, arquitetos, médicos, arqueólogos, filósofos, professores, músicos, dançarinos; todos tornaram-se alvos e foram exterminados pelos Khmers Vermelhos. O simples fato de usar óculos era motivo para a sentença de morte. A associação à cultura e ao saber era imediata. Muitos cambojanos deixaram de usar óculos para escapar desse extermínio.

As  execuções em massa, a fome e a doença dizimaram grande parte da população cambojana. Em apenas 4 anos, Pol Pot matou cerca de 30% da população. Desses 30%, apenas 7 pessoas sobreviveram, dentre eles pintores, carpinteiros e fotógrafos. Eles eram considerados úteis por Pol Pot e foram poupados. Eu tive a sorte de conhecer um deles, Bou Meng, o pintor.

Crianças e bebês eram igualmente mortos com o objetivo de matar a raiz do conhecimento. Esse era o lema de Pol Pot. No entanto muitas delas foram  doutrinadas para se tornarem os guardiães do regime. Eram ensinados  praticando métodos de tortura em animais para se tornarem oficiais, colaboradores, interrogadores e carrascos nas prisões.

Em 1979, o regime dos Khmers foi derrubado pela invasão das tropas vietnamitas e Pol Pot foi obrigado a refugiar-se na selva. Ficou anos tentando liderar e manobrar o movimento de guerrilha, mas sem sucesso abandonou formalmente a chefia dos Khmers. No fim de sua vida foi julgado, mas morreu de uma ataque cardíaco antes de cumprir qualquer pena em abril de 1998.

Abaixo, o maior campo de concentração do Camboja, em Phnom Penh, onde muitos inocentes foram cruelmente torturados e mortos. A construção ainda intacta, mostra as marcas do sofrimento em forma de manchas de sangue no chão, buracos de tiros nas paredes, correntes, objetos de tortura e uma energia pesadíssima.

 

[Voltar]

Discussion - 17 Comments

  • Gabriela Schönfeld mar 31, 2012 

    Querida Tati,
    que tristeza mais esta página obscura da história da humanidade…
    Acho muito corajosa tua atitude de mostrar o que é belo mas também o outro lado da moeda, o lado sinistro desta ditadura sanguinária.
    Esta viagem está sendo um aprendizado e tanto, hem? Espero que vc volte cheia de energia e novos projetos!
    Até breve, Gabi
    su

    Responder
    • tatiana abr 01, 2012 

      Pois é Gabi, triste demais… e se for pensar, essa barbaridade aconteceu a pouco tempo atrás. Terrível.

      E sim, a experiência está sendo o maior aprendizado de todos os tempos!

      beijos!

      Responder
  • Tiare abr 01, 2012 

    Impressionante. Mais um anticristo….Hitler, Saddan, Osama…..porque sera que na historia da humanidade temos que nos deparar com tanto mal? Eu ja estava familiarizada com as barbaridades do Khmer Rouge e seu lider Pot Pol. Li uma novel no ano passado, que trata exatamente desse tema. A autora, Kim Echlin, tem uma linguagem literaria diferente e moderna, e conta a tragedia no Camboja, atraves de um romance entre uma canadense e um cambojano. Recomendo.
    Adorei seu trabalho jornalistico, desta vez como reporter historico realista. Aguardo o proximo post!!! Beijos

    Responder
    • tatiana abr 05, 2012 

      Pois é Tiare, esse foi devastador, e com o seu próprio povo. O mais incrível é que mesmo no fim de sua vida, Pol Pot nunca admitiu o mal que fez… tem muito louco solto por aí.

      Obrigada!

      beijos!

      Responder
  • Rebeca abr 02, 2012 

    Nossa, eu acho que essa foi a parte mais sombria e negra da história de toda Ásia, no mínimo. Qual o sentido? Esse assunto dá muito pano pra manga, mas na minha opinião, ele pode ser sim considerado pior que o regime alemão. Foi um processo de auto-desctruição do próprio país e do infeliz Pol Pot.
    Aquele amigo cambojano que mencionei, viveu esse terror, e infelizmente perdeu a irmã, que morreu de fome literalmente. Essa foi a gota d’agua que fez com que eles se alistassem na imigração candense.
    Tirando todos os anos em que viveram de tristeza, agonia e expectativas de fugir do próprio país e da tristeza de ver a destruição da sua casa, cidade, amigos, família, etc..
    Adorei Tati, pelo menos sobrou um fiozinho de vida nesse campo de concentração, as árvores.
    Você deve ter se emocionado com a conversa que teve com esse pintor, nossa que experiência incrível.
    Continue trazendo tudo isso pra nós, ok?! Estou amando.
    Bjoooos

    Responder
    • tatiana abr 05, 2012 

      Rê querida, fiquei bastante abalada em ver tanto sofrimento. Realmente horrível. Muitos cambojanos ainda se lembram desse triste acontecimento, muitos foram diretamente afetados e muitos não sobreviveram para contar história. Afinal, faz muito pouco tempo, se for pensar.

      Obrigada lindona!

      bjs

      Responder
  • dado dantas abr 02, 2012 

    fascinante este post. adorei
    bacana de tudo é poder viver e absorver toda a cultura e essencia deste povo
    muito sofrido porem feliz a sua maneira
    imagino quanto voce tem absorvido desta experiencia
    bjs
    dado

    Responder
    • tatiana abr 18, 2012 

      Oi Dado querido! As vezes viajar também é absorver a dor e o sofrimento da cultura local, faz parte, não?

      beijo enorme!

      Responder
  • Alonzo Hiney abr 04, 2012 

    I’m still learning from you, while I’m improving myself. I certainly love reading all that is posted on your site.Keep the information coming. I liked it!

    Responder
    • tatiana abr 05, 2012 

      Hi Alonzo! Thank you for following Motto Slow Travel!

      I appreciate you taking your time to write me a comment. I will do my best to keep posting interesting content and I hope to continue inspiring you!

      Tatiana Perim

      Responder
  • B.L. Ochman abr 11, 2012 

    What a story! And how lucky to meet the painter. I hope he told you how he kept his creative flame alive in the face of the horrors.

    your journey certainly must be enlightening!
    love you,
    xo
    BL

    Responder
  • Edson abr 11, 2012 

    Oi, Tatiana!!
    Seu projeto é fantástico!!!
    Nunca imagiinei que a troca da bicicleta por uma moto no trânsito de SP fosse te levar pelo mundo afora.SP, não é segura para pedalar. Espero que vc aproveite e pedale bastante por aí afora, mas não se esqueça da moto. Como os seus seguidores, vou pegar carona na sua viagem e experiêincias. Fique com DEUS!!
    bj
    Motoqueiro que não gosta de bicicleta em SP

    Responder
    • tatiana abr 18, 2012 

      Oi Edson! Que legal te ver por aqui! Pois é, viu só! Resolvi pedalar, pilotar, cavalgar, navegar mundo afora!

      Achei que a vida estava passando como um filme e eu não estava nele. Por isso resolvi parar tudo e me jogar no mundo por um ano. Até agora foi a melhor decisão tomada!

      Obrigada por acompanhar!

      Você também, cuidado como o trânsito maluco de Sampa!

      beijo grande

      Tatiana

      Responder
  • Caio abr 13, 2012 

    Impressionante… a história de um país é contada pelo seu povo. É nessa versão que devemos acreditar. Esses malucos que se acham poderosos se esquecem de que nada é pra sempre, graças a Deus. Todos nós merecemos tomar conhecimento de barbáries como essas… assim vamos deixar de idolatrar ou temer nossos próprios algozes.
    Filosofei um pouco, viajei demais… é que eu me empolguei com o seu relato. Parabéns!!!

    Responder
    • tatiana abr 18, 2012 

      Falou e disse Caio! Concordo com cada vírgula que você escreveu!

      Muitas saudades de você!

      beijo enorme!

      Responder
  • Nasser abr 30, 2012 

    Tu estas e viagem ainda?

    Gostaria muito de conhecer o Camboja, Laos, Mianmar, Vietnã…
    sei que na maioria desses países ainda existem ditadores ou já tiveram esses malucos!

    Como é ter a sensação de estar no Camboja?

    Responder
    • tatiana mai 01, 2012 

      Oi Nasser, sim ainda estou em viagem.

      Myanmar foi o único país dessa lista que ainda não visitei. Mas pelo que ouvi das pessoas, é bem tranquilo, apesar de ser ainda um sistema fechado. Camboja, Laos e Vietnã você não vai encontrar nenhuma dificuldade, apenas alguns resquícios de uma época triste e conturbada causada por esses ditadores. Mas como turista, não vai ter nenhum problema.

      Para conhecer Myanmar, veja se precisa de visto, e o que eu ouvi é que pessoas que carregam muitos equipamentos fotográficos, podem ter um vistoria pela segurança em aeroportos um pouco mais minuciosa. Mas nada sério. Só porque ainda são paranóicos com jornalistas…

      Recomendo que faça essa viagem, você não vai se arrepender!

      Qualquer dica ou ajuda, é só avisar!

      Obrigada por escrever ; )

      Tatiana

      Responder

leave a comment

Instagr.am