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Missão Rinjani

Posted By: tatiana on jul 04, 2012 in Indonésia, Por onde andei

“O nosso motorista passará para te pegar às 6h.” Essas foram as últimas palavras.

Dia seguinte, bem cedo estava pronta. Esperei uns 40 minutos na recepção, ainda meio sonada, quando chegou um indonésio todo esbaforido. Foi logo se desculpando, abriu o porta-malas, jogou tudo lá dentro e saiu com a mesma velocidade com que chegou. Foram 3 horas de estrada com curvas apressadas e buzinas até a base, de onde eu receberia o briefing sobre a subida ao segundo maior vulcão da Indonésia, o Rinjani.

Ao chegar, todos pareciam aflitos e apressados. Fui atacada com perguntas concomitantes: “ Já tomou café? Precisa ir ao banheiro? Trouxe roupa de frio e chuva?” Confusa respondi que tinha umas duas blusas de manga comprida, legging e moleton… “É suficiente?” Perguntei. Fizeram uma cara de Monalisa em meio ao caos e disseram que dariam um jeito. Me enfiaram em outro carro, e assim sem maiores explicações, rumamos ao Rinjani trek center (RTC) em Senaru, de onde começaria a odisséia.

No primeiro dia subiríamos a 2.641 metros, seriam umas 8 horas de caminhada entre planícies, trilhas íngremes, florestas e eventuais escaladas. Isso não me assustou. O que me deixou em pânico, foi ver a quantidade de gente equipada. De repente fui tomada por uma sensação péssima de ter errado a roupa da festa. Eu vestia shorts, camiseta e tênis. Tinha um chapéu, protetor solar, canivete e guardava as blusas de manga comprida e calça legging na mochila para quando estivesse mais frio. Já os europeus, em sua maioria, esbanjavam seus equipamentos: barracas próprias, lanternas, luvas, bastões, calças e casacos impermeáveis, capas de chuva, cantis, chapéus, botas de montanha e a prova d’água… Esse foi o meu primeiro erro.

Cada turista tinha o seu próprio carregador que levaria a comida, água, as barracas e sacos de dormir. O mais curioso foi notar o contraste abissal entre os europeus munidos de tudo e os desprovidos carregadores indonésios. Eles utilizam o método tradicional de transporte: um pedaço de bambu, e em cada uma das extremidades, amarram a carga a ser levada. Sobem a montanha descalços ou de chinelo, usam shorts ou jeans e fumam feito chaminés. As vezes até mesmo durante a escalada. É impressionante.

Foram 7 horas de caminhada intensa e íngreme, bem cansativa, mas nada impossível. O pior foi a chuva e o frio, e claro, o total despreparo para esse clima tornou tudo um verdadeiro programa de índio. A salvação foi um plástico dourado que peguei emprestado. Com ele consegui me manter seca e aquecida. Mas por causa dele também fiquei conhecida por todos como: Mulher Maravilha, Peru de Natal e Lady Goldie. No começo achei até engraçado, mas quanto mais subia menos cômico ficava.

Fizemos uma parada para o almoço, que eu recusei. Fiquei com nojo. Tudo sendo preparado no chão, com uma água estranha e pelas mãos cheias de dedos e unhas encardidas dos carreadores, matou meu apetite. Comi somente um abacaxi. Segundo erro.

Aflita para chegar logo e descansar, liguei o turbo e apressei o passo. Passei os carregadores, o meu guia e muitos europeus. Cheguei quase 2 horas antes do meu grupo; arada de fome, cuspindo poeira de sede e quase gangrenando de frio. Não podia comer nem beber nada porque tudo estava com os carregadores. E tampouco podia trocar a roupa encharcada de suor, porque para diminuir o peso da minha mochila, dei as roupas para o guia e levei apenas o equipamento de foto. Terceiro erro.

Enquanto esperava meu guia e carregador lá do topo, embrulhada na minha salvação plástica dourada, tive tempo suficiente para tirar algumas conclusões:

- Acampar não é pra mim. Acampar sem a menor estrutura então, nem mesmo nas próximas encarnações.

- A vista lá de cima é maravilhosa. Mas a vista do vulcão lá da praia é mais linda ainda. Principalmente com uma Bintang gelada na mão.

- Nojo é uma reação instintiva com a finalidade de proteger o corpo contra envenenamento alimentar, exposição ao risco ou infecção. Mas ele só funciona se não há fome. Me peguei salivando em pensar naquela sopinha de água suja dos carregadores.

- Meu corpo não responde às necessidades fisiológicas se não há um banheiro minimamente limpo à disposição.

Finalmente quando chegaram, me apressei para trocar de roupa, dar uma lavada no rosto e beber muita água. O guia montou uma tendinha, que mais parecia uma pipa, pronta para voar a qualquer momento. Dentro da cabana, o odor manifestava todos os corpos suados que por ali dormiram durante dezenas e dezenas de expedições ao Rinjani. E mais uma vez, o nojo se esvaiu. O frio e a necessidade de sobrevivência eram bem maiores. Me entoquei na tenda e me enrolei no saco de dormir fedorento como se fosse aquele cobertozinho cheiroso da sala de TV. Nesse momento mentalizei o Tugu, o hotel sonho onde estava hospedada antes de inventar esse programa de índio classificação 30 cocares. Lembrei da cama monstruosa, do branco dos lençóis, do banheiro lindo ao ar livre, do chuveiro estilo cachoeira, do perfume das flores, da comida…. foi ali que bateu um leve desespero em imaginar que ainda faltavam dois dias para voltar.

O jantar preparado pelo guia surpreendeu. Não sei se a inanição foi o tempero secreto, mas o prato estava realmente uma delícia. Noodles com legumes, tempeh, soja e ovo frito. Raspei o prato, elogiei o chef, fechei a cabana e os olhos. Dia seguinte, acordei inteiramente descadeirada antes mesmo do sol aparecer. O colchãozinho não era exatamente com a tecnologia da NASA. Tampouco o travesseiro, que era um pedacinho de pano. A noite foi gelada e mal dormida, o saco de dormir e as finas lonas da cabana não venceram o vento gelado do topo da montanha. Mas o chef era de mão cheia! Café da manhã incrível: panqueca de banana.

E assim foi, entre trancos e barrancos, durante os dois dias seguintes alternando entre noodle e panqueca, chegamos a 3.741 metros de altura, cerca de 33 graus de inclinação e temperaturas bem baixas, por volta dos 7o C.

A sensação de prova vencida e a vista de arrasar, fez quase todo esse martírio valer a pena.

A dica pra quem curte esse tipo de programa é ir preparado. Não precisa exagerar como os europeus, mas ter sua barraca e saco de dormir pode fazer toda a diferença. E claro, estar vestido de forma adequada para enfrentar as diferentes condições climáticas.

Boa sorte.

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Discussion - 25 Comments

  • Felipe Aboudib jul 04, 2012 

    Fala Tati, beleza?

    Nossa que perrengue! As fotos são muito lindas, mas pela sua descrição e classificação de 30 cocares eu imagino como tenha sido este programa. Eu gosto de acampar, mas nunca fui nessas condições. Não sei se me agradaria muito não. Mas valeu a pena no final das contas, ou a vista da praia com a cerva ainda é melhor? O texto está ótimo, parabéns!
    Beijão

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    • tatiana jul 07, 2012 

      Oi querido! Foi um programinha de índio… acho que acampar não é comigo. Talvez se tivesse mais preparada, mas ainda assim, acho que lá da praia com um cervejinha na mão seria mais agradável ; )

      beijos!

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  • Van jul 07, 2012 

    Nossa que aventura, nessa eu teria arrumado minha mala com dois meses de antecedência… Lindas fotos! beijos amiga linda

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    • tatiana jul 07, 2012 

      Foi a maior aventura, amiga! Mas foi também um programinha de índio… acho que você não encararia…

      beijos!

      Responder
  • Rebeca jul 08, 2012 

    hahahahaha aiiii Tatiii… o vídeo foi demais, fechou com chave de ouro a sua epopéia!

    Ah… foi uma experiência diferente, vai?!
    e o visual pelo visto valeu muito a pena… lugar lindo demais!

    Bjooss

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    • tatiana jul 09, 2012 

      Foi Rê, experiência totalmente diferente… acho que nunca mais se repetirá…rs

      Responder
  • Marianne jul 09, 2012 

    Muito interessante o blog. O Rinjani é um desafio, principalmente nesta época de ‘inverno’ na região.
    Uma dica de slow travel: Sumba, a terceira ilha a Leste de Lombok, é fantástica e praticamente inexplorada por turistas. Tem paisagens impressionantes, as mais tradicionais casas sagradas da Indonésia e os tecidos (ikats, pahikungs) mais lindos que já vi. Boa sorte!

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    • tatiana jul 09, 2012 

      Oi Marianne! Legal receber sua mensagem!

      Conheço Sumba por fotos. Uma amiga fez um super documentário lá e pude ver a beleza e cultura do lugar. Fiquei com vontade de conhecer. De repente em breve ; )

      Obrigada pela dica!

      beijos

      Tatiana

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  • B.L. Ochman jul 10, 2012 

    You sure are having some adventures. My idea of camping is a hotel with no HBO. But amazing views, and gorgeous photos!

    Missing you! Sending love and good travel juju.
    xo
    BL

    Responder
    • tatiana jul 13, 2012 

      hahahahahahahahaha!

      You are funny! I agree with you!

      Miss you!

      Responder
  • André Ramos jul 11, 2012 

    OI Tati, aqui é o André Ramos, da Revista Pró Moto, tá lembrada? Puxa vida, mas que sensacional este post! Senti-me embarcado contigo nesta jornada marcada pelo improviso, sustos, “leves desesperos” e encontros com seus limites e dificuldades. Isso é que nos faz sentirmo-nos vivos e tenho a mais absoluta certeza que as palavras que compõem tua narrativa cheia de brilho, energia e até mesmo bom humor, conseguem transmitir esta explosão de vida que há em ti.
    Parabéns e não nos deixe de brindar com novas narrativas, fotos e experiências.
    E tua entrevista está em pé, ok?

    Um beijo e boa sorte.

    Responder
    • tatiana jul 13, 2012 

      Oi André! Pois é querido, foi uma aventura meio atrapalhada, mas valeu a experiência ; )

      Obrigada pela mensagem linda! Claro, a entrevista está super de pé! Estou de volta dia 25/08!

      bjs

      Tati

      Responder
  • angela jul 16, 2012 

    Hahahahahahaha , ótima descrição !! O video então é de chorar de rir e demonstra toda a narrativa impagável . Fotos e visual maravilhosos. Genial , amei beijo

    Responder
    • tatiana jul 16, 2012 

      hahahahahahaha! Pois é, quis realmente passar a ideia… rs

      beijos!

      Responder
  • Alexandre Imanishi jul 16, 2012 

    Tati !
    Quase me “mijei” de tanto rir por aqui… Te diria que esse programa foi mais que de índio, foi programa de um tribo inteira da amazônia… Sou muito mais um programinha no Hotel Tugu… (risos). Me dei conta nessa história que somos parecidos nas necessidades básicas e quase pude sentir o seu total desespero… Definitivamente, não somos dados ao camping selvagem… Bjs e saudades

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    • tatiana jul 18, 2012 

      hahahahahahahahaha! Viu só, mas eu encarei com classe ; )

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  • Jose horacio jul 17, 2012 

    tati
    Adorei o texto e fotos porém não consegui descobrir como abrir o video.Os meninos vem jantar hoje e vou pedir ajuda.Se o fizer a sua mãe estou frito!!!!!!Será “bulling”por 1 ano!!!!!!Eu gosto destas maluquices mas os problemas são muitos,banheiro o pior.Apesar dos cocares ,voce nunca mais vai esquecer e nós tivemos a chance de curtir sua saborosa descrição!Beijos

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    • tatiana jul 18, 2012 

      Oi ZH!!!! Pode deixar que não digo nada… rs… Sim, apesar dos cocares, a experiência foi incrível! Legal que gostou… depois me conte se conseguiu ver o vídeo, etá bem ilustrativo. rs

      bjs

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  • Ssun ago 08, 2012 

    Perã,
    adorei o tom do texto!
    posso imaginar que o ponto alto foi o nojo das maozinhas ( cheias de dedos – aodrei) e unhas encardidas….
    no final, vale tamanho esforço físico? só uma vista linda valeu a pena? O que isso trouxe de bom?
    love

    Responder
    • tatiana ago 10, 2012 

      Oi Ssun, legal que curtiu! Olha, tudo vale a pena quando a alma não é pequena ; )

      bjs

      Responder
  • Ssun ago 08, 2012 

    OBS: a vista ( amei o vídeo) é incrível….teve com o perengue curtir o lugar, dar uma respirada, uma boa contemplaçao?

    Responder
  • Aline Cavalcante ago 28, 2012 

    Tatiana, não te conheço pessoalmente e quem indicou esse site foi Ana Fugulin (que trabalhou com você e agora trabalha comigo), enfim, só passei aqui para dizer que viajei com você nesse post, amo acampar, mas também amo um belo hotel, aliás, o que eu amo mesmo é viajar e você conseguiu passar todo seu sofrimento e prazer nesse relato.
    Parabéns e abraços!

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    • tatiana set 12, 2012 

      Oi Aline, que legal que gostou! As vezes entramos em uns programas de índio que no fim, valem a pena… pela risada pelo menos!

      beijo grande e obrigada!

      Tatiana

      Responder
  • Marco dez 17, 2012 

    Os lugares que você viaja são fantásticos… Mas o seu texto ultrapassa as vezes as lindas fotos e diferentes localidades. Eu fico aqui na mesa do escritório lendo e rindo sózinho com as suas observações. Parabéns pelo seu brilhante trabalho e sempre é muito inspirador dar uma passadinha por aqui no seu blog… parabéns… xx

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    • tatiana dez 22, 2012 

      Oi Marco! Fiquei feliz com a sua mensagem! Em certas situações, só assim mesmo, dando risada : )

      Obrigada por acompanhar. Mês que vem vou ter mais conteúdo, lá do leste europeu. Vai ser legal, então apareça!

      Mais uma vez obrigada e um 2013 cheio de viagens pra você!

      Tatiana

      Responder

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