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Banjaras – à mercê da sociedade indiana

Posted By: tatiana on fev 13, 2012 in Índia, Por onde andei

Banjara é o nome dado às pequenas comunidades nômades típicas do estado do Rajastão, norte da Índia. Um povo marginalizado, desrespeitado e mal visto pelos próprios indianos.

Muitas vezes cometem crimes menores, como roubos nos mercados e nas ruas, e quando são pegos, mudam-se para outras cidades. Por isso, não são vistos como um grupo estável e ficam totalmente à mercê da sociedade. Vivem em terras abandonadas e geralmente quando se estabilizam nessas áreas, são forçados a desocupá-las. Ganham dinheiro através do artesanato, como jóias, trabalho com argila e tapetes. São conhecidos pelo dhurre, um tapete muito durável e barato feito com pêlo de camelo e algodão. Outros ganham a vida com a música, tocando nas ruas e mercados. E muitos simplesmente sobrevivem dia após dia com pequenas doações de dinheiro e comida.

Diferente dos indianos, essa comunidade evocou em mim uma enorme admiração e respeito.Visualmente sofridos, vivem em condições sub-humanas. As crianças não recebem nenhum tipo de educação ou cuidado especial. A moradia é precária e a higiene é uma palavra que não pertence ao vocabulário deles. Não dispõem de vestimentas apropriadas para enfrentar o frio, nem estrutura para lutar contra o calor sufocante do deserto. A alimentação é básica, suficiente para não morrerem de fome. A saúde desse grupo é claramente vulnerável e afetada por todos esses fatores inerentes ao que parece ser seu destino ou karma. Mas dentro dessa aparente fatalidade imutável, os banjaras são alegres, divertidos e extremamente amáveis.

O grupo com quem conversei faz parte de uma casta de músicos chamada Bhopa. Eles tocam um instrumento curioso, o tanduri. Parece um violino improvisado, feito de coco, madeira, fio de aço e osso de camelo, e produz um som típico do Rajastão. Eles só podem se casar com alguém da mesma casta e seus casamentos são todos arranjados. Jamais eles conseguirão mudar essa realidade, pois o sistema de castas perpetua a crença na superioridade racial de determinadas “classes” de seres humanos sobre outras. A aceitação da opressão de certas castas “nobres” sobre a maioria sofredora faz parte do código sócio-religioso, fundamental no hinduísmo e que influencia toda a estrutura da sociedade na Índia.

Diferente da maioria dos banjaras, esse grupo mora no mesmo local há 9 anos. Apesar de terem perdido grande parte de suas casas durante um grave incêndio, eles resistiram a mais esse infortúnio e lutaram para reconstruir suas vidas, permanecendo de forma digna nessa região árida próxima a Pushkar.

Me receberam muito bem, com respeito e cordialidade. Em momento algum me senti ameaçada, muito pelo contrário, fizeram de tudo para eu me sentir em casa. Ansiosos para contar sobre suas vidas e acontecimentos, só tenho um arrependimento: não falar o Rajasthani, dialeto do Rajastão. De forma alguma isso foi um impedimento para a aproximação desses dois mundos distintos. Mas tenho certeza que deixei de entender alguns detalhes e de dizer tudo aquilo que estava na minha mente. Mesmo assim, tendo todas as diferenças imagináveis entre eu e esse grupo, me senti muito próxima de cada uma deles.

Meu coração se encheu de alegria com cada sorriso, cada palavra e história contada. Mas ao mesmo tempo, saí de lá com muito mais questionamentos do que quando cheguei. Encarei a desigualdade cara a cara e não consegui evitar um certo sentimento de culpa e impotência. Por que alguns tem tanto e outros tão pouco?

A Índia tem disso: a diferença abissal entre o rico e o pobre, o espiritual e o material, o cruel e o bondoso, a revolta e a aceitação, o lindo e o feio, o culto e o analfabeto… tudo é extremo nesse país. No Brasil, na bolha da minha cultura, eu achava que compreendia muita coisa, até mesmo a nossa própria miséria. E estou chegando a conclusão que o que achava que sabia sobre mim e o mundo, já não tenho tanta certeza assim. Parece que a Índia tem esse efeito nas pessoas, é como se entrássemos em uma grande casa de espelhos e pudéssemos enxergar  os dois lados de cada reflexo. E esse, não é um processo muito fácil de digerir.

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Discussion - 13 Comments

  • Gabriela Schönfeld fev 13, 2012 

    É, muita desigualdade por este mundo afora… Povos nômades nunca foram bem vistos… aqui tb nao. Achei linda a foto da mae com o filho no colo. Boa viagem e te cuida, bjs Gabi

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    • tatiana fev 13, 2012 

      Pois é… o que me impressionou é que jamais eles poderão mudar essa condição precária deles. Serão sempre parte dessa casta. E tudo bem, aceitam isso bem, vivem felizes e fazem o melhor que podem… é de se aprender alguma coisa com esse povo.

      Obrigada Gabi!

      beijos

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  • Rebeca fev 13, 2012 

    Achei que iam ficar brincando de Hi5 pra sempre! hahaha, que lindos! Eles se divertem com tão pouco, né?! Pra eles deve ter sido um marco e um momento de distração, de esperança, alivio, enfim.. um mix de sensações ter tido você com eles, mesmo que por poucos minutos.
    É muito bonito a transparência e o anseio deles em dividir tudo com você, a história, os costumes, as aflições.
    Mais uma vez parabéns! Estou amando cada vez mais! E obrigada por dividir tão lindamente!!!
    Bjssss

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    • tatiana fev 13, 2012 

      hahahahaha! Não sei eles, mas eu poderia ficar brincando de Hi-5 pra sempre! Lindos demais!

      Rê querida, obrigada pela mensagem… mesmo. Fico muito feliz em poder dividir e saber que outras pessoas também se emocionam com essas experiências.

      Um beijo enorme e mais uma vez obrigada por acompanhar!

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  • Krista fev 13, 2012 

    Tati-

    Love it all! So beautiful and so touched by all of it! Love you very much,

    Martha

    Responder
    • tatiana fev 14, 2012 

      Love you Kristelly!

      Thanks angel…

      beijos

      Responder
  • Flavia fev 13, 2012 

    Ai, Tati, que peeeeeeeeeena dessas crianças, deste povo sofrido. Dá vontade de largar tudo… e pensar que, como eles, há milhões no mundo.
    No entanto, a verdade é que não é preciso “ter” para ser feliz.
    Beijo grande!

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    • tatiana fev 14, 2012 

      Oi Flavia!!!!! Sim, é de partir o coração… assim como muita gente na nossa terrinha, que assim como os indianos, são felizes com tão pouco. Faz a gente parar pra pensar, não?
      Obrigada por acompanhar querida!

      beijo grande

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  • Ed fev 14, 2012 

    Tatiiiii,
    Muito lindo esse trabalho que você está fazendo.
    Continue aproveitando cada detalhe desse presente que Deus lhe dá de poder conhecer quão variado pode ser o ser humano.
    Cuide-se e volte inteira para todos nós! :)
    Parabéns!
    Beijos, saudades,
    Ed
    PS.: mega orgulhoso de você :D

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    • tatiana fev 14, 2012 

      Ed!!!!! Que demais que está gostando!Fico super feliz, queridão!
      Sim, é um presente divino esse, e estou aproveitando de forma plena e entregue… com certeza, a ideia é voltar inteira e com muita história pra contar!

      beijo enorme cheio de saudades!

      Obrigada por acompanhar, meu amigo lindo!

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  • Tiare fev 15, 2012 

    Gostei dessa primeira entrevista, deu para sentir esse povo, que, pasme- achei feliz.
    Comecei a filosofar aqui comigo e questionar toda esse problema social que nosso mundo enfrenta, tao bem sentido e relatado por vc.
    To meia propensa a achar que qualquer interferencia na realidade social e material de um povo milenar, vai mexer com um monte de conviccoes e crencas, como um efeito domino, culminando com a perda de identidade, infelicidade e grande sensacao de vazio- mais ou menos o que a maioria da populacao ocidental experimenta hoje em dia…..
    Claro que a FOME, que flagela os paises africanos se encaixa em outra categoria……
    Mas voltando a esse povoado do norte da India, a escassez de comida, higiene, e ate instrucao, incomodam mais a gente do que a eles….vc nao acha? E esse absurdo sistema de castas, e a fe e cumprimento das leis do hinduismo, sao o que os mantem equilibrados…..Nao ha questionamentos nem duvidas e nem espaco para a depressao e outros problemas psicologicos……ninguem busca a felicidade, pois para eles eh um estado de espirito e nao uma meta…..
    Bom, querida Tati, muitas saudades e orgulho de vc estar ai, presenciando outras realidades e abrindo sua cabecinha a complexidade deste mundo.
    Quando vc sai da India?

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    • tatiana fev 15, 2012 

      Concordo plenamente. Na realidade acho que a religião segura a onde deles…

      Fico na Índia até dia 21. Vou tentar encontrar a Sonia, mas está bem corrido, não sei se vou conseguir. Tenho menos de 24 horas em Delhi…

      Também estou com saudades… beijos a todos!

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  • Juliana mar 02, 2013 

    Olá, Tatiana!Excelente vídeo!Fiquei olhando essas crianças, tão simples, mas tão felizes e lembrando das que eu vejo aqui todo dia no Japão. Eu trabalho para o governo japonês e auxilio as crianças estrangeiras nas escolas daqui. E, nestes 6 anos eu nunca vi um criança, nem japonesa e nem estrangeira com a alegria e espontaneidade que essas crianças indianas têm. Eu estive na Índia recentemente e percebi isso. Percebi o quanto o olhar delas têm vida, apesar de elas não terem quase nada, se comparado às crianças de um país como o que eu vivo. Realmente nos faz pensar e avaliar muita coisa. Um grande abraço.

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